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O que a classe política precisa aprender com a comunicação de Augusto Cury antes que seja tarde

O crescimento de Augusto Cury na disputa presidencial não deve ser analisado apenas como uma surpresa de pesquisa. Para quem trabalha profissionalmente com estratégia eleitoral, o caso é mais interessante pelo que revela sobre a nova lógica das campanhas: hoje, eleição não é apenas disputa por voto. É disputa por atenção, significado, familiaridade e capacidade de conversão.

Cury entrou na política carregando um ativo que muitos candidatos levam anos para construir: uma audiência anterior à candidatura. Milhões de pessoas já conheciam seu nome, sua imagem e sua forma de falar. O debate não criou Augusto Cury. Apenas reposicionou uma figura conhecida dentro de uma nova categoria mental para o eleitor: a de possível presidente. Essa diferença é estratégica, porque toda campanha enfrenta três batalhas básicas: ser conhecida, ser compreendida e ser escolhida. Cury já começou com parte da primeira batalha vencida.

O ambiente digital fez o restante do trabalho de aceleração. Um bom momento em um debate deixou de morrer quando o programa termina. Ele vira corte, comentário, compartilhamento, reação e nova exposição. É por isso que campanhas modernas não podem pensar apenas em agenda. Precisam pensar em acontecimentos com capacidade de propagação. Há candidatos que fazem dezenas de eventos sem produzir um único momento memorável. Outros conseguem, em poucos minutos, dominar o debate político de uma semana.

Mas alcance sozinho não explica crescimento. O segundo elemento é coerência de personagem. Cury não apareceu tentando imitar um político profissional. Preservou linguagem, postura e características pelas quais já era reconhecido. Marketing político eficiente não deveria fabricar personagens. Deveria identificar, dentro da personalidade real do candidato, aquilo que possui maior potência eleitoral e amplificá-lo.

Há ainda uma questão de posicionamento. Em uma disputa marcada por confronto e polarização, serenidade pode virar diferenciação. Política também é contraste. O valor de um candidato não é percebido isoladamente, mas em comparação com aquilo que os demais representam. Quando todos gritam, quem fala diferente ganha atenção.

Isso não significa que audiência digital seja voto. Não é. Mas audiência qualificada produz curiosidade, curiosidade gera conhecimento, conhecimento pode produzir identificação e identificação abre espaço para o voto. O trabalho estratégico está justamente em administrar essa sequência.

Por isso, já não basta observar pesquisa, estrutura partidária, prefeitos ou tempo de televisão. É preciso medir força narrativa, capacidade de propagação, autoridade digital, rejeição, potencial de crescimento e velocidade de conversão. Há candidatos com muitos votos e pouca capacidade de expansão. Outros têm poucos votos naquele momento, mas todos os elementos necessários para crescer.

O caso Augusto Cury ainda pode avançar, estabilizar ou recuar. Mas a lição já está posta: quem entra numa eleição preocupado apenas em conquistar votos começa atrasado. Antes do voto existe outra disputa, mais silenciosa e decisiva: a de determinar quem será visto, ouvido, lembrado e considerado.

Anderson Rosa
Jornalista e estrategista político